O peso da dúvida no método científico

A revista The New Yorker trouxe um artigo interessante sobre a busca da verdade em pesquisas científicas: The decline effect and the scientific method: newyorker.com.

método científico e a verdadeO articulista mostra alguns exemplos de pesquisas nas quais as conclusões obtidas nos primeiros estágios da investigação perderam força observacional ou estatística com o passar do tempo e com novas pesquisas.

Por exemplo, um antipsicótico de segunda geração que foi usado amplamente para tratar sintomas de esquizofrenia, pois as pesquisas mostravam e as experiências clínicas comprovam um efeito benéfico aos pacientes, parecia que estava perdendo seu poder de atuação. Continuava sendo uma droga boa, mas as evidências de benefícios diminuíram em duas décadas de acompanhamento, sendo comparável aos efeitos das drogas antipsicóticas de primeira geração (que eram muito mais baratas). “É como se os fatos fossem perdendo a verdade: afirmações que eram destaques de livros-textos são repentinamente não prováveis”.

A pergunta que segue é o porque deste fenômeno, mesmo assumindo a completa honestidade por parte dos cientistas. Antes de comentar o restante do artigo, enfatizo que o método científico é usado novamente para mostrar as falhas de procedimento, influência psicológica dos pesquisadores, variáveis aleatórias etc. Em outras palavras, a dúvida é parte importante na investigação com o método científico. Ao contrário das afirmações categóricas e dogmáticas da religião, para dar um contraexemplo.

O outro exemplo que chamou a minha atenção como professor foi o resultado que associava a memória e a fala: havia boas evidências de que o ato de descrever verbalmente o que está na nossa memória, iria aprimorar ainda mais a memória. Acho que posso refrasear o resultado assim: falar o que você quer decorar ajuda a memória. Parece bem intuitivo e os resultados de laboratório davam forte evidências desta correlação: falar e memorizar. Mas o psicólogo Schooler mostrou que indivíduos que viam faces de outras pessoas e as descreviam não conseguiram lembrar tão bem quanto outros indivíduos que apenas olhavam para as faces, mas não as descreviam. Este experimento mostrou que a linguagem na descrição atrapalhou a memória. Schooler chamou este fenômeno de sombra verbal (verbal overshadow).  Esta pesquisa foi replicada várias vezes, mas, estranhamente, ficava cada vez mais difícil garantir que não havia relação entre linguagem e memória. Ou que a relação era em um sentido ou outro. O que se passa. Schooler então começou a investigar fenômeno das variações das evidências nas afirmações de outras pesquisas também.

A conclusão é que há muitos fatores envolvidos em pesquisas muito complexas e ninguém deve se acomodar com resultados anteriores. As pesquisas deste tipo exigem constante averiguação.

Não é o caso da matemática clássica que é dedutiva.  A partir de hipóteses e definições MUITO CLARAS e MINUCIOSAS, pode-se provar teses. A ciência, por outro lado, é indutiva. Pode haver muitas evidências para um resultado, com 95% de confiança por exemplo. Isto não tem a força de um teorema matemático. Os 5% de dúvida são muito importantes para continuar as investigações.

É claro também que uma afirmação científica com muitos dados e muita confiança é melhor do que uma afirmação com poucos ou sem dados. O método científico valoriza a dúvida, mas com razão.