Nostalgia por um passado inventado

O Médico Amy Tuteur, MD do Science and Medicine argumenta (Science-Based Medicine » Longing for a past that never existed) que a falta de conhecimentos históricos de como era a vida no passado faz com que muitas pessoas supervalorizem uma vida dita mais natural, com alimentos orgânicos, sem pesticidas, mais atividades físicas, sendo que as eventuais doenças que apareciam eram rapidamente tratadas pela sabedoria popular com remédios e tratamentos “naturais”.

De fato, antes das vacinações, dos agrotóxicos e dos avanços da medicina do século XX, a mortalidade infantil era altíssima, a fome ou subnutrição eram muito mais comuns do que (ainda) vemos hoje, a morte da mãe durante ou logo após o parto acontecia com freqüência bem maior do que atualmente, e muita gente morria de causas não conhecidas (“de repente”, doença de homem, caroço em algum orgão, etc).

Não há dúvidas que conhecemos mais doenças atualmente por conta de mais diagnósticos e porque algumas dessas doenças são característica da velhice que não se atingia no passado.

O argumento é consistente estatisticamente, na média. Podemos sempre citar alguém que viveu 110 anos sem os tratamentos modernos, mas é uma exceção ou outra.

Todos almejamos longa vida e de qualidade. E para isto, a ciência moderna tem feito grandes avanços.  Retroceder é uma atitude religiosa sem fundamento.

Nesta mesma linha, recebi, já várias vezes, mensagens com o seguinte argumento nostálgico:

“Os carros do meu pai não tinham cintos de segurança, as bicicletas não tinham nenhum tipo de proteção. Nós carregávamos sempre amigos no cano. Nossos pais nem sabiam onde estávamos, pois não existiam celulares. Ninguém morreu por causa de vermes, tomávamos remédios sem prazo de validade e sobrevivemos”

A realidade é que os hospitais e cemitérios recebem muita gente que andam de bicicletas sem proteção, andam de carro sem cinto de segurança, morrem de vermes ou de remédios vencidos etc. Mas alguns (muitos até) não tiveram acidentes, mas não podemos generalizar e, por mais que não gostemos individualmente, em média, várias destas medidas restritivas salvaram muitas vidas ou evitaram deficiências graves por acidentes. O passado de alegrias era particular, não geral, e algumas memórias desagradáveis foram apagadas (memória seletiva que a psicologia bem entende).