A arte da ciência: criando um futuro melhor

Introdução

O título deste post foi o tema da Conferência de 2009 da ASTC (Associação de Centros de Tectnologia e Ciências) na qual tive a oportunidade de participar.

A ASTC 2009 aconteceu em Fort Worth, terra onde o velho Oeste começou. Este é o lema da cidade que é bem valorizado.

Mercado de troca e venda de gado em Fort Worth
Mercado de troca e venda de gado em Fort Worth

Todos os dias há uma parada de gado “longhorn” e de cowboys no Live Stock District:

Parada de gado longhorn em Fort Worth
Parada de gado longhorn em Fort Worth

O interessante da cidade, que tem um centro muito bonito e empresarial, é que a tradição dos Cowboys convive com outras formas culturais e não por acaso a cidade abriga muitos museus interessantes e agora está inaugurando um enorme museu de ciências.

Impressões genéricas

Capitalismo americano

Todos falam da crise econômica, mas o que me chamou a atenção foi um anúncio na TV (nem lembro do que era). “Nesta crise, aproveite a oportunidade para renegociar TUDO”.

Nos aeroportos, alguns empresários perceberam que há uma demanda enorme por acesso à internet wireless. São aqueles viciados em e-mail que não podem ficar muito tempo sem conexão. Se há procura, há oferta a um preço que eles avaliam alguém vai pagar. Até aí não há diferença dos aeroportos no Brasil recentemente. O que chamou a atenção é que a competição por “escolher” um determinado aeroporto também existe. Assim, a internet é livre no aeroporto de Orlando, que precisa atrair mais viajantes do que em Dallas, por exemplo.

Tempo é dinheiro, e isto é levado a sério pelos americanos. Eu reservei o hotel com bastante antecedência e tive um preço e qualidade melhores do que um colega que teve que escolher o hotel na semana antecedente ao evento.

Apesar de toda a crise, a riqueza acumulada neste país é muito grande. Basta ver o tamanho e movimento nos aeroportos.

Urbanismo americano

Na maior parte das cidades americanas, a ocupação urbana é de baixa densidade. Isto implica tudo muito espalhado e longuíssimas distâncias conectadas por rodovias enormes com muitas faixas etc. Em resumo, é quase impossível não ter carro próprio para se deslocar de um lugar para o outro. O trânsito é muito ordenado, sob vigilância onipresente de policiais.

Regras pra tudo

Gostando ou não, há regras bem estabelecidas que prevêem quase tudo. Por exemplo, no centro de Fort Worth havia um show de música texana popular, um rock caipira (coutry rock). Começou logo após o almoço. O local foi cercado (cerca baixa), e fica então permitido o consumo de álcool (para maiores de 21 anos) mas apenas no interior do cercado. Veja a foto:

show de regras
Concerto de country music in Fort Worth

De costas vemos alguns policiais que não pensam duas vezes antes de expulsar alguém que esteja ficando inconveniente. Eu vi uma cena assim: Quatro policiais enormes colocando, gentilmente, um sujeito pra fora. Para entrar no cercado US 25 e nem pensar em saltar só porque é baixo. Se quiser assistir ao concerto, do lado de fora, não há problema.

Placa de piscina em Fort Worth
Placa com proibições em piscina estética em Fort Worth

A cidade tem um jardim com cascatas artificiais e espelhos d´água. Veja a placa de uma piscina:

Na parte de baixo dá pra ver cinco símbolos de proibições.

A conferência

A feira de fornecedores

Na sexta-feira um grande saguão foi usado para stands de empresas que de alguma forma fornecem produtos ou serviços para os museus de ciência. Impressionante. Eles são muito profissionais e fazem excelente propaganda de tudo. Eu tenho mais de 70 folders ou cartões. O problema é que eles cobram caro para os nossos padrões brasileiros, mas algumas coisas valem a pena.

O uso de alta tecnologia pra imagens talvez teve a maior quantidade de oferta e variedades. Nesta categoria coloco o globo digitalizado, que o nosso Museu Exploratório de Ciências – Unicamp vai comprar, veja do que ele é capaz:

Global ImaginationO globo é uma tela esperta que projeta o que o software indicar. Novas aplicações vão se juntar às existentes que lidam com geografia, mudanças climáticas e astronomia.

Eu também achei interessante e acessível para o nosso Museu Exploratório de Ciências – Unicamp o wentzcope, que é um microscópio que os visitantes podem facilmente usar, manipular e trocar de lâminas.

Wentzscpope
O nome do aparelho é homenagem óbvia ao inventor, Budd Wentz, com que conversei um pouco.

Outra atração em várias versões foi a dos planetários. Por vários motivos eu gostei da proposta da e-planetarium.

planetarium portátil

Há outros itens interessantes que oportunamente vamos estudar a viabilidade de termos na Unicamp.

O centro de convenções

O local das atividades foi o centro de convenções de Fort Worth, no centro da cidade. É enorme, aliás, o Texas tem mania de grandeza.

Centro de convenções de Fort Worth
Centro de convenções de Fort Worth

Nos ambientes de maior público (havia uns 1500 participantes), telões de alta definição mostram a imagem dos palestrantes ou do palco. Tudo high tech.

As palestras e workshops

Havia muitos eventos em paralelo. Eu tentei acompanhar ou assistir aqueles que tinham alguma chance de ser úteis para o nosso caso.

As apresentações foram, em sua maioria, apresentação de casos particulares. Um tema recorrente foi a da sustentabilidade. E neste sentido, o pragmatismo do capitalismo americano vem à tona na forma de uma empresa, de um negócio que tem que ser auto-sustentável e de preferência dê lucro para novos investimentos.

Outro tema recorrente foi a do envolvimento com a comunidade local e, a grande maioria dos centros e museus de ciências oferecem atividades de ensino não formal, após a escola ou durante as férias escolares.

Finalmente, o tema da arte, que foi o título, de fato apareceu em várias sessões. A idéia de misturar arte com a divulgação científica, na forma de pintura, teatro, fotografia e cinema.

Uma atividade que achei interessante, usa os recursos de câmaras digitais para fazer animações. Em poucos passos um grupo de crianças, adolescentes ou adultos pode fazer um filme com algum enredo. Em alguns casos a proposta foi de enredos livres, mas pode-se propor enredos de cunho informativo e científico.

Por razões didáticas, a escolha do MonkeyJam foi a que mais agradou-me. É um programa gratuito, mas há outros similares, como o Cyberlink. A moral da história é que a interação dos visitantes com esta atividade é garantida. Este tipo de atividade pode ser implementada nas férias, por exemplo.

Algumas apresentações envolviam dinâmica de grupo, o que é bom pra não ficar com muito falatório, mas eu não podia facilmente estar em muitos grupos ao mesmo tempo, que era o meu objetivo, a saber, absorver o máximo de ideia para processar enquanto volto ao Brasil.

Foi a minha primeira participação neste tipo de evento e confesso ter estranhado o caráter empresarial e comercial. Em uma palestra, uma senhora com estilo de animadora de vendedores falava de como conseguir recursos com os membros, visitantes etc. A palestra tinha o estilo de auto-ajuda. Eu saí quando ela falou:

Nós temos dois ouvidos e apenas uma boca para ouvirmos o dobro do que falamos

E com esta pérola ela queria ensinar aos executivos de museus que deveriam ouvir mais os visitantes, os funcionários etc do que falar e dar ordens. Ah se o mundo tivesse essa simplicidade linear! Muito senso comum pro meu gosto. Saí e fui pra outra sala.

Finalmente, uma sessão que prometia ser boa era a das experiências dos centros e museus de ciências que foram construídos ou reformados recentemente. Os apresentadores falariam o que repetiriam e o que não fariam novamente.

De fato foi interessante, mas as configurações são tão diferentes da nossa, que pouca coisa foi acrescentada. Todos eles reclamaram da interação dos empreiteiros e fornecedores com os objetivos, prazos e propósitos da divulgação científica, algo que já sabemos que é complicado mesmo, e que não tem solução global.

Conclusão

A conferência da ASTC 2009 foi interessante principalmente pelos contatos e possibilidades de interação internacional que percebemos serem possíveis. Em termos de conteúdo ficou a desejar, mas eu não saberia o que deveria melhorar.

Do ponto de vista de visita (turismo), conhecer Fort Worth foi muito interessante, especialmente visitar o novo museu de ciências e o museu Kimbell de artes, que tem um quadro de Michelangelo quando ele era adolescente.

O problema é que depois de tanta informação, fiquei de cabeça cheia.

Samuel de cabeça cheia
Samuel de cabeça cheia

4 opiniões sobre “A arte da ciência: criando um futuro melhor”

  1. Olá Samuel, vejo q está aproveitando. Nosso Museu, com certeza ganhará com esta sua viagem. Por aqui estou trabalhando MUUIITTOO e, não sei se por isso, meu mais novo e inseparável amigo “o gânglio do pesçoco” resolver diminuir.
    Um abraço e até breve!
    Elias

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