Heresia, histeria, hermenêutica e o aquecimento global

A maior parte da comunidade científica concorda que as atividades humanas têm afetado o clima global e que provavelmente provocarão mudanças desagradáveis ao próprio ser humano nas décadas futuras. Mas infelizmente há reações histéricas e informações desonestas ou desinformações honestas circulando pela mídia. A cautela científica deve prevalecer. Alguns interpretam textos e dados de maneira contraditória.

O famoso físico Freeman Dyson se diz herege neste assunto pois não tem certeza das simulações computacionais das tendências climáticas e vai contra a maré das previsões de aquecimento provocado pelas atividades humanas. Ele levanta alguns pontos relevantes:

  1. O conceito de temperatura global é interessante mas não é tão relevante quanto os climas locais.
  2. Não sabemos a dinâmica de formação das nuvens altas e baixas se a temperatura, a pressão e umidade se alterarem.
  3. Não sabemos como, ou se, a biomassa absorveria o gás carbônico adicionado à atmosfera pelos combustíveis fósseis.

Nuvem

De fato, vários efeitos de retorno (feedback) não estão nas simulações computacionais apesar de avanços significativos na modelagem de formação de nuvens e da interação atmosfera e oceanos. No entanto, o físico teórico não apresenta novos modelos matemáticos nem computacionais. Muito menos dados novos. Dyson acha que deve haver céticos ou hereges com coragem para discordar da maioria e propõe, com alguns argumentos, que o problema climático pode ser resolvido com o manuseio apropriado do solo. As propostas parecem boas mas a eficácia delas deve ser comprovada.

Se por um lado há histerias nas previsões apocalípticas do aquecimento global, por outro lado há hipocrisia na tentativa de negação.

Além da provocação do Dyson, duas notícias geraram furor recentemente. Uma dizia do erro de coleta de dados nas temperaturas locais durante o século XX e a outra mostrou algumas estimativas (erradas) de que, para percorrer 5 km, andar a pé produziria mais gases estufas do que viajar de carro a gasolina.

O erro descoberto pelos próprios cientistas não é significante em termos globais e de longo prazo. Mas merece atenção pois com a correção, a previsão de aquecimento (local) nos EUA ficou menor 0,15ºC e o ano de 1998 perdeu o recorde do século XX de maior temperatura (local) média para o ano de 1934. Por dois centésimos de grau, isto é, a estimativa de temperatura acima da média (anomalia) para 1934 é 1,25ºC (era 1.23ºC) e para 1998 é 1.23ºC (era 1.24ºC). Acontece que a barra de erro está em 0,1°C e portanto a diferença não tem relevância estatística.

temperatura globalOs novos dados pouco afetaram as medidas globais. Veja o gráfico. Os pontos pretos são as médias anuais. A curva vermelha mostra a média de um quinqüênio e em verde estão algumas das barras de erro com 95% de confiança. Mas a maior característica dos dados continuam sendo as temperaturas 1980 em diante – são pelo menos uma barra de erro maiores do que as anteriores. Observe que o patamar atual está na faixa de 0,6°C.

A outra notícia mostra os cálculos do jornalista Chris Goodall. carro e boiVeja o arquivo pdf em inglês ou o comentário do Sidney Rezende. Segundo o jornalista, para andar 5 km uma pessoa consome 180 kcal. É o que contém 100 g de carne. Para produzir esta quantidade de carne o setor alimentício ejeta aproximadamente 3,6 kg de CO2 na atmosfera. Mas se o preguiçoso for de carro vai ejetar 0,9 kg de CO2 na atmosfera, isto é, apenas 1/4 do efeito de andar.

A grosso modo o carro consome um litro de combustível que produz o CO2 estimado. Tudo bem. Mas Goodall não calcula o impacto da produção da gasolina nem do carro em si e nem do motorista que consome algumas calorias para dirigir também. Já para a carne ele inclui a produção de gases em toda a cadeia do setor. Esta é uma interpretação de dados, a hermenêutica, maliciosa e desonesta.

É melhor andar e pensar.