Mulheres de Marte

O Dia Internacional da Mulher é comemorado no mês em homenagem a Marte, o deus da guerra na mitologia Romana e o nome do nosso planeta vermelho vizinho. A coincidência é interessante pois 08 de Março foi escolhido em função de mulheres “guerreiras” que lutavam por melhores condições de trabalho, em Nova York, há exatamente 150 anos. A proposta do dia foi dada pelo partido comunista alemão em 1911. Veja um pouco desta história.

As comemorações pretendem chamar a atenção para o papel e a dignidade da mulher na sociedade e derrubar preconceitos e limitações impostos ao sexo feminino. Sem dúvida houve avanços em várias áreas da sociedade e locais do mundo. Mas a cultura com hegemonia machista é muito antiga, forte e muitas vezes sutil.

Observem a letra da música de Chico Buarque e Augusto Boal

Mulheres de Atenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumamElis Regina canta Mulheres de Atenas
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem pro seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro se encolhem
Se confortam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas.

Para quem não conhece ou não lembra da música, ouça (arquivo ram para RealPlayer) uma versão cantada por Elis Regina na Joven Pan (5 minutos) em 1976 ou o próprio Chico cantando no YouTube

Veja (arquivo em pdf) a análise da letra e breve explicação histórica pelo professor Atanásio Rocha no site MundoCultural. Fiz este devaneio cultural para mostrar que a nossa sociedade tem atribuído às mulheres o papel quase exclusivo de parceira sexual, esposa e mãe. Felizmente isto já mudou bastante. Mas estamos longe de celebrar a igualdade de oportunidades entre os gêneros.

O preconceito é claro na violência doméstica, no assédio sexual e nas promoções de trabalho. Mas há várias outras barreiras mais sutis. Por exemplo, a mulher tem direito de votar e se candidatar a cargos eletivos, no Brasil, desde 1936. Mas nossos representantes políticos são majoritariamente, na ordem de 80%, masculinos.

A barreira a cargos mais elevados em uma empresa continua sendo emblemática. Vou dar um exemplo. Observei uma convenção de vendedores de uma marca de cosméticos em um grande restaurante em Campinas. Na platéia não consegui ver um homem. Mas quem estava ensinando? Um homem, super empolgado … Um outro exemplo é caso da reitoria da University de Havard. O então reitor se expressou muito mal em relação à minoria de mulheres entre os professores titulares. Agora Havard tem sua primeira reitora, a historiadora Drew Faust.

Em ciências e tecnologia, as diferenças de gênero continuam sem justificativas razoáveis. Por experiência de ensino, não há diferenças de aprendizado em Matemática e Física e há vários exemplos de mulheres com contribuições significativas. Mas os preconceitos sutis desde a infância, pressões sociais na adolescência etc têm afastado boa parte do sexo feminino do rol de estudantes em Engenharias, Física e Matemática.

livro Feminismo Mudou a CienciaAlgumas vezes as mulheres são afastadas por detalhes. No livro O Feminismo mudou a ciência?, Londa Schiebinger relata o caso do exame SAT nos Estados Unidos nos anos 1970. O SAT é usado para acesso ao Ensino Superior e tem duas partes: a verbal e a matemática. Um estudo mostrou que, nas escolas, as moças recebiam 5% mais notas máximas na parte verbal e 10% mais notas máximas em matemática do que os rapazes. Ainda assim, essas moças tinham pontuações significativamente mais baixas no SAT. Por conta disto, um Juiz proibiu o Departamento de Educação de Nova York de usar avaliações do SAT como única base para conceder bolsas de mérito porque julgou que o SAT discriminava as moças.

Presto minha homenagem às Mulheres em geral. Especialmente àquelas que fazem parte da minha vida: a filhas, a esposa, a mãe, as irmãs e a enteada. São mulheres de Marte, são guerreiras!

Joyce e TainaMulheres de casa

Nara

Com Licença Poética

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar, (…)
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.